Aí está, o novo poiso do libertino:
www.jdmr.wordpress.com
Simples, directo, o poder da palavra por si só.
terça-feira, 3 de fevereiro de 2009
quinta-feira, 15 de janeiro de 2009
(in)Finito
Este post começa a jeito de desfecho, quando o tempo prestes a terminar antecede um garrafudo The End justamente como nos filmes, em que somos assolados com a narrativa intensa do monólogo final deixando em post scriptum palavras que como mel dançarão na boca um tango lento, o tango da reflexão, logo após o tela se fechar em preto.
Por mais que venha com deontologias para com os viveres, ou não viveres, a vida de tal forma móbil vai deixando em notas soltas que a única deontologia passível é nenhuma, e sendo nenhuma todas poderão ser.
Lambusei-me de todo o mel que este libertino espaço me poderia dar, agora com as últimas gotas dançando o tal tango primo o off deste espaço, fito a tela fechada em preto e parto para outros cenários, outras personagens, á procura de novos doces tangos, porque há muito pólen nesta vida, a proliferação depende de nós.
Por mais que venha com deontologias para com os viveres, ou não viveres, a vida de tal forma móbil vai deixando em notas soltas que a única deontologia passível é nenhuma, e sendo nenhuma todas poderão ser.
Lambusei-me de todo o mel que este libertino espaço me poderia dar, agora com as últimas gotas dançando o tal tango primo o off deste espaço, fito a tela fechada em preto e parto para outros cenários, outras personagens, á procura de novos doces tangos, porque há muito pólen nesta vida, a proliferação depende de nós.
domingo, 11 de janeiro de 2009
Gramática

O que fazemos quando o pensamos?
O que pensamos quando o fazemos?
O que fazemos sem o pensar?
O pensamos quando não o fazemos?
A quatro palavras se resume a vida quando vivemos distorcendo o verbo a um nome comum.
Duas consoantes duas vogais, apenas gramática básica quando o conjugamos apenas na primeira pessoa do singular.
Duas sílabas quando essa singular conjugação não nos faz olhar (e ver) á volta, e nos perdemos mais no nosso próprio circulo, desvanecidos, enjoados quando nos disponhos horizontalmente á noite, tentando que o sono e essa posição sobreponham o verbo virado nome comum que nesse dia preconizamos.
Intermitência será provavelmante a condição que não melhor, antes precisamente, adjectiva o tal nome comum que antes foi verbo, denegrida a sua classe, ou talvez não, nome comum ou qualquer outro, não passa de um estatuto. A intermitente condição continuará com seu pujante artrito tornando desejável o seu wiskhy, quando na verdade só nos trará mais um dor de cabeça e enjoo que afogaremos na horizontal posição ao fim do dia.
sexta-feira, 9 de janeiro de 2009
Os dias como os sentimos

Somam-se-me os dias, disse uma vez o apoteótico Álvaro de Campos. Arriscaria dizer, estando já a fazê-lo, que poderia ter dito assemelham-se-me os dias, sendo diferente para o mesmo converge.
Já não ponha a vista em cima, com o cliché, com estes olhos que a terra há-de comer, desde que me lembro, e passando os olhos pelos papiros da memória, de tal não me lembro, de um dia como este na freguesia de Refojos de Basto, um manto de neve cobriu o que havia para cobrir.
Certamente perguntam-se, também eu perguntaria, o que é uma coisa tem aver com outra, nada a uma vista desnudada, mas tudo se a incidirmos um pouco mais, tudo tem um ponto de ligação, por mais rebuscado que seja.
Os dia somam-se isso é uma constante, mas não se somam se nesse dito verbo aplicarmos a adjectivação de enfadonhos, ou monótonos, como o caro poeta certamente os sentia aquando passou para o papel a frase que começou este post. Dias como o que presenciamos ontem aqui na vila proporcionam um lufada de ar fresco, a neve vinda das ordens naturais tornou o que poderia ser enfadonho em algo completamente apelativo, tornando possivel pôr na nossa boca não um assemelham-se-me os dias, mas provavelmente um isto é lindo, já não me lembrava de um dia assim. Pois bem, eu como ferveroso apreciador tirei logo da camâra para tirar fotos e então me apercebi que no dia que precisamente antecedeu aquele não tive a entusiastica ideia de registar as belas paisagens, porque não o fiz, perguntei e pergunto agora, não se tratava da mesma paisagem?
Um simples novo condimento pode tornar tão diferente o que anteriormente nos passava despercebido, somos nós, seres, que pelo espirito apreciativo incrementamos na neve um aura de beleza, mas o mesmo não o faríamos se tal não acontecesse.
Os dias não se assemelham, nós fazemos com que os sentimentos sobre o envolvente se assemelhem ao ponto de não os sentirmos.
Que se somem os dias, que não se assemelhem o que por certo se diferenciava se caísse neve, como aconteceu, que somem os dias, mas que se multipliquem e conjuguem palavras de apreço.
Acabo de ver um filme cujo final é: "E a vida nunca foi tão doce", nada mais é preciso acrescentar.
Já não ponha a vista em cima, com o cliché, com estes olhos que a terra há-de comer, desde que me lembro, e passando os olhos pelos papiros da memória, de tal não me lembro, de um dia como este na freguesia de Refojos de Basto, um manto de neve cobriu o que havia para cobrir.
Certamente perguntam-se, também eu perguntaria, o que é uma coisa tem aver com outra, nada a uma vista desnudada, mas tudo se a incidirmos um pouco mais, tudo tem um ponto de ligação, por mais rebuscado que seja.
Os dia somam-se isso é uma constante, mas não se somam se nesse dito verbo aplicarmos a adjectivação de enfadonhos, ou monótonos, como o caro poeta certamente os sentia aquando passou para o papel a frase que começou este post. Dias como o que presenciamos ontem aqui na vila proporcionam um lufada de ar fresco, a neve vinda das ordens naturais tornou o que poderia ser enfadonho em algo completamente apelativo, tornando possivel pôr na nossa boca não um assemelham-se-me os dias, mas provavelmente um isto é lindo, já não me lembrava de um dia assim. Pois bem, eu como ferveroso apreciador tirei logo da camâra para tirar fotos e então me apercebi que no dia que precisamente antecedeu aquele não tive a entusiastica ideia de registar as belas paisagens, porque não o fiz, perguntei e pergunto agora, não se tratava da mesma paisagem?
Um simples novo condimento pode tornar tão diferente o que anteriormente nos passava despercebido, somos nós, seres, que pelo espirito apreciativo incrementamos na neve um aura de beleza, mas o mesmo não o faríamos se tal não acontecesse.
Os dias não se assemelham, nós fazemos com que os sentimentos sobre o envolvente se assemelhem ao ponto de não os sentirmos.
Que se somem os dias, que não se assemelhem o que por certo se diferenciava se caísse neve, como aconteceu, que somem os dias, mas que se multipliquem e conjuguem palavras de apreço.
Acabo de ver um filme cujo final é: "E a vida nunca foi tão doce", nada mais é preciso acrescentar.
segunda-feira, 5 de janeiro de 2009
Cinzas

O que lá vai lá vai, diz-se de tempos a tempos, bem mais do que se pensa, em lugares múltiplos, pitorescos, citadinos,de bem arejados e aprumados a outros não tanto.
Porque voltam memórias de quando nem sabiamos o significado de tal, quando o esquecimento era ainda uma vagem verde e tenra, crescendo ingénua do ardil em que nos toma o tempo.
A infância perdida, já o dizia o poeta Pessoa, essa em que sem se saber o porquê das coisas se sabe mais desconhecendo, essa sem que haja noção de esperanças todas se nos pousam no antebraço tão naturalmente como passáro que tão bem o faz. À medida que vamos trincando a maça, como Adão o fez, se não foi Adão outro qualquer foi por certo, o pássaro ganha medo e não pousa mais, limita-se a sobrevoar-nos de longe, arguto pássaro que este me saíu.
Penso, imagino talvez, que essas ocasionais analepses que nos remontam para tempos idos sejam avisos subtis, não como letreiros luminosos, simples, visiveis a quem os quiser ver, neste caso sentir, que todos morremos, e se não viramos cinza algo muito parecido será, nem que fiquemos para sempre materiais, em termos de vida somos cinza, enegrecida, disforme, imóvel.
Aí quando todas as luzes se vão desvanecendo em catadupa será tarde, se não revolvermos os tempos quando o tempo é ainda beneplácito, fazendo de memórias algo presente, acaso futuro, esses substratos de névoa serão até ao fim somente como a cinza em que culminava a farta lenha das imensas conversas á lareira desses muitos natais idos, o que lá vai lá vai...
sábado, 27 de dezembro de 2008
Palavras em Busto
Os nomes que identificam cada ser sempre adquiriram grande importância nas questões práticas do dia-a-dia, não só tornam a comunicação assaz processo de inter-relacionamento como permitem que evoquemos mentalmente as caracteristicas da pessoa cujo o nome é pronunciado ou ouvido.
Quando alguém morre seu nome fica, pelo menos até as memórias se tornarem enevoados montes, pela névoa exasperante do tempo, se for caso de tal o nome pode ficar conservado em livros, factos, contos populares que passam de boca em boca da plebe em tal avidez como se um surto de sede tivesse afligido aquelas bandas, em obras, em descobertas e por aí além, mas todas elas podem convergir num opaco e maciço memorial. Falarvos-ei especialmente dos inúmeros bustos que existem, em rotundas e outros que tais espaços públicos que saltem á vista da apressada turba.
Com o tempo ninguém repara, e não é preciso muito, logo no dia que precede o da inauguração ninguém tirando um ocasional turista ou até uma pobre alma deambuleando por nenhures, mas o que é certo é que em termos gerais pouco ou mesmo nada de relevante é imprimido pelas pessoas em tais bustos.
O cerne desta questão é que depois da passagem acutilante do tempo, não só ninguém liga patavina aos ditos bustos como se porventura repararem devanalmente nem sequer sabem de quem se trata.
É a isto a que foram remetidas as pessoas cujas "cabeças" encalhadas num bloco de cimento lembrando os tempos das decapitações públicas e posteriores exibições de aviso aos presumiveis futuros infractores, é desta forma que seu feitos por certo de relevância são ostentados?
Não, desta forma não é possivel desafiar as ventanias erosivas e corrosivas que o tempo exerce na memória.
A forma é simples, é a mesma com que iniciei esta reflexão e a termino, a comunicação.
Quando alguém morre seu nome fica, pelo menos até as memórias se tornarem enevoados montes, pela névoa exasperante do tempo, se for caso de tal o nome pode ficar conservado em livros, factos, contos populares que passam de boca em boca da plebe em tal avidez como se um surto de sede tivesse afligido aquelas bandas, em obras, em descobertas e por aí além, mas todas elas podem convergir num opaco e maciço memorial. Falarvos-ei especialmente dos inúmeros bustos que existem, em rotundas e outros que tais espaços públicos que saltem á vista da apressada turba.
Com o tempo ninguém repara, e não é preciso muito, logo no dia que precede o da inauguração ninguém tirando um ocasional turista ou até uma pobre alma deambuleando por nenhures, mas o que é certo é que em termos gerais pouco ou mesmo nada de relevante é imprimido pelas pessoas em tais bustos.
O cerne desta questão é que depois da passagem acutilante do tempo, não só ninguém liga patavina aos ditos bustos como se porventura repararem devanalmente nem sequer sabem de quem se trata.
É a isto a que foram remetidas as pessoas cujas "cabeças" encalhadas num bloco de cimento lembrando os tempos das decapitações públicas e posteriores exibições de aviso aos presumiveis futuros infractores, é desta forma que seu feitos por certo de relevância são ostentados?
Não, desta forma não é possivel desafiar as ventanias erosivas e corrosivas que o tempo exerce na memória.
A forma é simples, é a mesma com que iniciei esta reflexão e a termino, a comunicação.
quarta-feira, 24 de dezembro de 2008
Repto
Enquanto nós transeuntes desta Terra, não nos tornarmos passentos à água da chuva, aos raios de sol, aos grãos terrosos que calcamos e decalcamos, aos plácidos verdes da paisagem, a nós mesmos e à imensa turba, seremos sempre uma massa palpando sofregamente nas escuras as formas do ser.
Bom Natal
Bom Natal
segunda-feira, 22 de dezembro de 2008
Contos em "curta-metragem"(III)
"Simplesmente ser"O sol brilhava, sempre brilha. Uma agitação de inicio ténue galgava forças, os maleáveis torrões de terra quebravam-se em catadupa enquanto uma súbita elevação surgiu, primeiro a um verde muito tímido depois já de arrebatada por um ou dois dias de sol alto a folhita, ou melhor dizendo a vistosa folha, que isto de narrar fenómenos naturais torna a dita narrativa precedida de anacronismos, lá ganhou cor digna de gente grande.
De sol a sol como um trabalhador escava a terra, as folhas unidas a um caule iam subindo como se vissem naquele ponto brilhante que as vigorava um seio de mãe pronto a mitigar aquela fome de subida. E por ali acima continuavam, a dados instantes uma torrente de frescura irrompia a terra, a água captava-a em gesto mecânico a raiz, cérebro de longas pernas que mesmo sem andarem comandavam e ordenavam: -Avante, àquelas senhoras de seu nariz que ostentavam verdes vivos ao clarão flamante da primavera.
Semana e meia já havia decorrido, ou talvez mais ou mesmo menos, com tanta beleza que importam pormenores temporais? EIA! Gritou a criança que, acompanhando a avó na rega, reparou no botão que um pincel primoroso desenhava nas extremidades finais daquele ser.
Como eterno soberano, o tempo senhor da única certeza que sempre há -de perpetuar, ou talvez não, por estas bandas a que chamamos mundo, lá vai compenetrado na sua silenciosa marcha, junta-se também á marcha a jovial rosa, marcha vigorosa até estarem completas as cinco pétalas de coloração ostentosa, agora balançará ao vento á espera de entre uma e outra ventania ser colhida para intensificar algum momento ou então ficará ali no seu lugar cativo, porção de terra, até definhar às injúrias temporais que tanto engana estas jovens moças com promessas de juventude eterna.
Quando a dita se apercebeu que voltaria em tempo decretado á terra de onde surgiu, estando já a cova feita, já a está para todos como bem sabemos, é a única certeza com que acordamos, ela enraiveceu-se fazendo urgir no seu esguio caule um espinho, símbolo da traição do tempo, e de cada vez que este lhe sussurrava na brisa a jeito de galã ela fechava sua copa, enraivecia-se e mais um espinho se ornamentava com ímpeto de guerra, como aviso ao pretendente que tentava abrilhantar a face de donzela, que se estava escrito nas pedras do destino que as cinco pétalas cairiam para não mais ressurgirem também ninguém iria arrancá-la da terra.
Todo o santo dia o galã ciciava a sua sedutora mímica aos sete ventos e a quantos mais houvesse, todo o santo dia despontavam sete espinhos e quantos mais coubessem.
Até que, nestas histórias há sempre um “até que”, o galã sibilou uma outra cantiga, um cantiga bem diferente, uma cantiga capaz de espicaçar a frondosa copa de cinco pétalas a abrir de uma só estocada de rejúbilo, desta vez não veio com promessas, apenas disse, e nada mais foi preciso: - Porque insistes em cravejar a periferia da tua alma a espinhos se aquilo que és transcende muito mais do que cinco pétalas que ostentas como um ceptro de juventude, minha querida não é o ceptro que faz o rei, é o coração, e nesse nunca conseguirás fazer surgir qualquer espinho.
E a rosa simplesmente decidiu aquilo que por natureza já havia sido decidido, a ser rosa, efemeramente feliz, quer se veja sol ou o dia se abra em chuva, apesar de nesta última a água que lhe fará pesar as pétalas a entristeça, vendo seus tons garridos remetidos a outros esmorecidos, mas vistosa ou esmorecida é rosa e tal ninguém lho tira, e como o sol brilha, sempre brilha ela é rosa e sempre o será até que o decreto temporal da mesma mão que a viu nascer a enterre sob o seu próprio caule.
De sol a sol como um trabalhador escava a terra, as folhas unidas a um caule iam subindo como se vissem naquele ponto brilhante que as vigorava um seio de mãe pronto a mitigar aquela fome de subida. E por ali acima continuavam, a dados instantes uma torrente de frescura irrompia a terra, a água captava-a em gesto mecânico a raiz, cérebro de longas pernas que mesmo sem andarem comandavam e ordenavam: -Avante, àquelas senhoras de seu nariz que ostentavam verdes vivos ao clarão flamante da primavera.
Semana e meia já havia decorrido, ou talvez mais ou mesmo menos, com tanta beleza que importam pormenores temporais? EIA! Gritou a criança que, acompanhando a avó na rega, reparou no botão que um pincel primoroso desenhava nas extremidades finais daquele ser.
Como eterno soberano, o tempo senhor da única certeza que sempre há -de perpetuar, ou talvez não, por estas bandas a que chamamos mundo, lá vai compenetrado na sua silenciosa marcha, junta-se também á marcha a jovial rosa, marcha vigorosa até estarem completas as cinco pétalas de coloração ostentosa, agora balançará ao vento á espera de entre uma e outra ventania ser colhida para intensificar algum momento ou então ficará ali no seu lugar cativo, porção de terra, até definhar às injúrias temporais que tanto engana estas jovens moças com promessas de juventude eterna.
Quando a dita se apercebeu que voltaria em tempo decretado á terra de onde surgiu, estando já a cova feita, já a está para todos como bem sabemos, é a única certeza com que acordamos, ela enraiveceu-se fazendo urgir no seu esguio caule um espinho, símbolo da traição do tempo, e de cada vez que este lhe sussurrava na brisa a jeito de galã ela fechava sua copa, enraivecia-se e mais um espinho se ornamentava com ímpeto de guerra, como aviso ao pretendente que tentava abrilhantar a face de donzela, que se estava escrito nas pedras do destino que as cinco pétalas cairiam para não mais ressurgirem também ninguém iria arrancá-la da terra.
Todo o santo dia o galã ciciava a sua sedutora mímica aos sete ventos e a quantos mais houvesse, todo o santo dia despontavam sete espinhos e quantos mais coubessem.
Até que, nestas histórias há sempre um “até que”, o galã sibilou uma outra cantiga, um cantiga bem diferente, uma cantiga capaz de espicaçar a frondosa copa de cinco pétalas a abrir de uma só estocada de rejúbilo, desta vez não veio com promessas, apenas disse, e nada mais foi preciso: - Porque insistes em cravejar a periferia da tua alma a espinhos se aquilo que és transcende muito mais do que cinco pétalas que ostentas como um ceptro de juventude, minha querida não é o ceptro que faz o rei, é o coração, e nesse nunca conseguirás fazer surgir qualquer espinho.
E a rosa simplesmente decidiu aquilo que por natureza já havia sido decidido, a ser rosa, efemeramente feliz, quer se veja sol ou o dia se abra em chuva, apesar de nesta última a água que lhe fará pesar as pétalas a entristeça, vendo seus tons garridos remetidos a outros esmorecidos, mas vistosa ou esmorecida é rosa e tal ninguém lho tira, e como o sol brilha, sempre brilha ela é rosa e sempre o será até que o decreto temporal da mesma mão que a viu nascer a enterre sob o seu próprio caule.
domingo, 14 de dezembro de 2008
O elixir da vida
A um passo segue-o um outro
Único trilho, trilho único que nos meus olhos é calcetado
Vivo os sons, as cores, os odores
Sigo em frente e sou amado
Vides ladeam o caminho, meu corpo
Corpo num meio sublime
Das ramadas despontam bagas, um leve odor adocicado
Respirava livre e conheci-me
Sigo em frente e sou amado
Pé ante pé, surge nova pedra
Na estrada que construo nunca ajoelhado
Surge na minha rota a natureza como o é
Sigo em frente e sou amado
O vento uiva transversal
Ando, corro, salto e grito
Grito a cor de um poema, suor do meu próprio sal
Ei-lo o momento, indago e suscito:
Sou amado e imortal!
Único trilho, trilho único que nos meus olhos é calcetado
Vivo os sons, as cores, os odores
Sigo em frente e sou amado
Vides ladeam o caminho, meu corpo
Corpo num meio sublime
Das ramadas despontam bagas, um leve odor adocicado
Respirava livre e conheci-me
Sigo em frente e sou amado
Pé ante pé, surge nova pedra
Na estrada que construo nunca ajoelhado
Surge na minha rota a natureza como o é
Sigo em frente e sou amado
O vento uiva transversal
Ando, corro, salto e grito
Grito a cor de um poema, suor do meu próprio sal
Ei-lo o momento, indago e suscito:
Sou amado e imortal!
quarta-feira, 10 de dezembro de 2008
Contos em "curta-metragem"(II)

O recém-nascido
O sol brilhava, sempre brilha. Recuamos, em pleno séc.XVI chamo-vos para a história de Tiago, um rapaz que se fez homem, um homem que sempre viveu rapaz.Deambulando nas oscilantes eras do crescimento, balouçando como barco ás palpipantes águas de rio que corre e revolve ao tom imperativo do vento.
Num barco nos encontraremos. Nele, sentando, fresco como a ar matinal, estava Tiago, com as mão em posição, cada qual no remo correspondente, preparado para o dia de trabalho.Era o que fazia, o que sempre desejou fazer desde a primeira vez que sentiu os remos e o controlo de um pequeno pedaço de madeira sob os seus membros.
Este rapaz trabalhava para senhores ricos, membros honorários da alta burguesia, daquela cujos titulos são como que hereditários. Todos os dias fazia transportar tais individualidades pelo curto caudal que rodeava a mansão, até á margem onde se encontravam o vistoso coche e os imponentes cavalos.
De toda a familia, Tiago sempre preferiu transportar o menino, que salvo seja, teria já os seus vinte anos, um carão de responsabilidades e a elegância de um aristocrata, quando os dias acordavam daimosos e o sol libertava a sua magia e se mostrava de peito cheio, arfando o fidalgo ás brisas da manhã, tudo adquiria uma nova alma, e o fausto do menino radiava como se também de peito cheio ousasse desafiar o fidalgo de lá de cima. Em tais dias mostrava-se muito conversador, falava da vida, do belo, de literatura, de música, de pintura, de em arte em si, enunciando uma roda-viva de nomes abrilhantados por um tom conhecedor, era pois a escola de Tiago, pouco sabedor pelo oficio, assim o diziam, mas não, dizia ele, Tiago tinha também um peito cheio dentro dele á espera de uma qualquer luz que incindindo nele o fizesse adquirir por certo uma nova alma.
E não é que o peito cheio arfou nesse mesmo dia?
A meio do caudal enquanto muito indiferente, fingia ele, compenetrado nos seus mecânicos movimentos, mais do hábito do que qualquer outra coisa, o menino desviando repentinamente o olhar das sucessivas circunferências criadas pelos remos na água, indagou deste modo, como se as palavras ganhassem perninhas e corressem da boca pra fora pedindo boleia ao vento: -Há algo que se me interpôs na consciência, gostas realmente do que fazes?
O pobre rapaz, sentiu que algo lhe arremessara o coração fora e o tornara a colocar tudo isto num segundo, primeiro num acto de coerência, pensou que não seria para ele, mas nesse mesmo primeiro momento a coerência revelou-se estupidez porque não havia mais ninguém para além dele, depois pensou que poderia ser algum devaneio artistico do menino, pensamento que se caíu como pedra em água, afundando-se quando ouviu de novo a pergunta.
Elevou o tronco a medo, a cabeça ainda com mais, mas nunca extendendo a máximo, para não arriscar ficar a um nível acima do posição do menino.
- Eu... eu gos..eu gosto.
Nada mais disse, não queria abusar das palavras, pensando mesmo que já o tinha feito.
Nada mais disse, não queria abusar das palavras, pensando mesmo que já o tinha feito.
-Mas fala-me mais, diz-me o que sentes quando percorres o rio dia após dia.
- Menino, desculpe, perd..perdão perdão, caro senhor é apenas o que faço, faço porque alguém o tinha de fazer, e eu gosto juro que gosto, o lago é bonito e estou como sempre sonhei em comunhão com a natureza, o sossego é a minha vida, o seu cântico a minha voz.
-Gostei, revelas simplicidade e alma homem. E que tal se remasse eu hoje o que falta até á margem por ti?... não nada disso, não há desculpas, disse e tá dito, afinal quem manda? perguntou sorrindo
E assim foi, Tiago refastelou-se no lugar que nunca lhe pertenceu,toda a sua vida havia sido vista de um lado contrário, pensou, pensou e disse por fim ao menino que agora se tinha revelado homem.
- Basta ver a vida de um outro lugar que não o que sempre guardamos como nosso e ela revela-nos uma outra expressão, sorri-nos talvez, mas olha-nos com os mesmos olhos que olho agora para o mesmo lago, para os mesmos remos, para o mesmo tudo, e tudo se me mostra novo. Acabei de nascer - disse por fim.
Nesse momento, porque a vida é feita de momentos,o lago foi remetido a uns bons mil metros acima do nivel das águas, e o rapaz feito homem que sempre viveu rapaz deslizou, ainda não tinha recebido todo o sentimento de andar pela primeira vez de barco quando o sol, o fidalgo de peito cheio, incidiu sobre suas mãos, as mesmas que remavam, os calos desaparecem e a metamorfose culminou na nova alma adquirida do recém- nascido Tiago .
sábado, 6 de dezembro de 2008
Contos em "curta-metragem"

O primeiro voo
O sol brilhava, sempre brilha. As andorinhas acabavam de chegar no seu negro aglomerado, abraçando o vento com suas asas abertas, culminando este abraço na graciosa, lá de vez em vez desajeitada, aterragem no galho que seria o seu primeiro pedestal no qual se pavoneavam audazes viajantes.Lá um belo espetáculo era.
Brido, um melro-preto, aproveitou toda a bolina, a aura de espetáculo e voou, a principio só pelo gosto, pelos odores, pela sensação, no fim, pelo mesmo, Brido era assim voava por voar, voava porque nasceu pássaro.
Tal dito, tal lasciva visão fazia manchete na tertúlia das 5 no tronco do Bufo-real, estavam lá todos, desde a Coruja, a Dona Sância, a toutinegra Zizi e mais umas quantas andorinhas ávidas de novidades, a socialite em peso diria qualquer ornitólogo.
O vento ressoava a melodia desprovida de maestro, Brido seguia-a numa girandôla, para todo lado e para lado nenhum. Por algum motivo ou por falta dele, só a seu belo prazer o vento ressalvou numa última sonora estocada e desfez-se numa vénia ao sol tímido da manhã, a calmia resultante obrigou o melro a desviar a atenção para outro panorama, encontrou Noel um beija-flores,num tronco transversal, decidiu por fim interromper descaradamente a, presumia ele, divagação matutina.
Num voo picado juntou-se a ele, esforçou-se para aterrar vertiginosamente, o que resultava sempre numa queda em rebuliço, ao seu jeito devasso. Nada despertou o interesse de Noel, continou impávido, espectante, indeferente a tudo, concentrado em nada.Inesperadamente, Noel focou-o e disse com a mesma serenidade de há instantes: - Será, amigo, que os pássaros realmente vêm o o cenário que sobrevoam? ou limitam-se a olhar?, o expoente máximo do magnifico encontra-se nos olhos que sentem a beleza, ou o quadro envolvente é apenas um monturo de cores.
O palpitante coração de Brido palpitou ainda mais, mais do que alguma vez tinha acontecido. Levantou voo, o dia passou diante da sua redoma ocular, como uma panóplia de acções que se conjugam numa única, a noite chegou, com ela o manto negro que tudo cobre, e quando o pássaro posou no seu leito, soube-o, tinha finalmente aprendido a voar.
terça-feira, 2 de dezembro de 2008
A rua do mundo

A luz trémula
Indaga a sua má sorte
A solidão que a acompanha
Na taciturna noite
Invoca presságio de morte
Olho-a, depois ergo
Esse mesmo olhar
Sem pestanejar
A rua permanece
Prestes a gritar
Mas permanece
Aguardo a sua prece
Mas nada
Tudo sólido
Nenhum ranger de dentes, de raiva
Urge das pedras da calçada
Nenhum uivo de dor
Como quem perdeu sua amada
Só, apenas, unicamente
Nada…
Meu casaco cai
Aí vem a primeira rajada de frio
Que afia na sua pedra de amolar, o vento
As suas mil e uma facas
E mais umas quantas, agulhas
Que me dilaceram lentamente
Como brasas que lançam fagulhas
Testo-o!
As camisolas caem
De tronco nu agora
Desses complementos despojado
Mais uma facada
Enquanto foco as pedras, e nada
Perenes na sua instância de demora
Aguardam, talvez, que este despojado louco
(Eu)
Se vá embora
Meu pé não se arreda
Permaneço, instigando mais as pedras
Embrenho-me mais no seu desafio
Suores de loucura
A seta que perfura
Este dilacerante frio…
A febre assintomática da espera
Me toma
Quem não desespera é o frio
Que inicia nova demanda
A neblina adensa-se
Salta para nevoeiro
Como gato que salta para outra varanda.
Desaperto o cinto
Num gesto brusco
Mas não desperto as pedras
Exaltam numa silenciosa gritaria
Suas infames - Grito mesmo de gritar.
Não vim aqui só para vos olhar
Para tal não viria
Vim aqui p’ra caminhar
Desde esta noite
P’ra todo o dia.
Nuvens adensem-se
Cerrem-se
Mas não tanto como minh’alma
Sob a crença de mim próprio
Nu sobre ela me deito
Tomo o dito por feito.
Nu, assim amanhã acordarei
Em mim a fecharei
Como as nuvem que se adensaram
E cerraram
Como elas viverei.
O que ela é?
De que falas nesses intermitentes versos?
- Perguntam as pedras
Ah! Finalmente falaram
Até pedras as mais insondáveis
Venci, venço e vencerá
Qualquer louco suado
Nu, despojado
Que assim nu se entregar
E lançar ao desafio
Pela e só pela nudez trajado
Quais facas e agulhas
Mil e uma e mais umas quantas
Não, não te demoverá o frio.
Falo da rua, das cantigas de rua
Que oiço quando nela venço e caminho
Como sequioso humano
Sorve o paladar do seu vinho.
Deito-me sobre a rua, no meio,
Mesmo sobre o seu seio
Esperando uma outra voz
Que não veio
Mas virá
Sei que virá
Sei porque mim mesmo se deita sobre esta gélida calçada
No meu deleito de ser humano
Sei porque o verdadeiramente sou
E nisso nada há de profano.
Escuto o que a sábia pedra tem para dizer
Com sua voz rouca ensinar
Mais nada espero, que mais poderia acontecer?
Quem por tantos pés foi remexida e mesmo assim
Intocável se mostra á vida
Ela saberá, sei que saberá
Dizer-me que caminho devo tomar
Apenas disse calmamente, sem pestanejar:
“Segue o presente, vive-o como eu remexida mas intocável
Como virgem floresta
E a todos os tempos deverás chegar.”
Um fogo irrompe
Um paladar desponta
A trémula luz incandesce
Agora rejuvenescida
Largou para sempre
Aquela descrença tremida.
Como ela, sendo ela, eu acordo
Começo a cantarolar
E assobiar
Caem as gotas do orvalho
Nas folhas, nos ramos, nas raízes
Até no chão,
Nesta rua da razão
Quando o pássaro levanta voo do seu galho.
Cantigas da rua que palmilho
Que importa se meus pés
Ásperos se tornam
Á fricção da calçada
Porque eu roço nela descalço
Não num bojo de terra
Que se diz seguro e é falso.
As feridas que se abrem
Com meu sangue marcarão
A sapiência destas pedras
Descalço em vós caminho
Eis a minha gratidão.
Ah cantigas da rua, desta rua, do mundo
Que todo ele é-o esta rua
Desenlaça nobre humano
Os cordões que suprimem
Os pés que anseiam caminhar
Na liberdade que convosco nasceu
E vive sonhando com o que sempre será teu.
Vem, caminha a meu lado
De todos esses complementes despojado
E desnudado vem
Eu, tu e ela
A verdade da minha verdade
Da nossa, de todos
Cabeça, tronco, membros
Sintam ó poros a frescura
Respirem ofegantes
Que isto amanhã
Não será “antes”
Mas um eterno depois
Ó verdadeiros caminhantes.
Sintam, abram-se, gritem
Gritem, abram-se, sintam
Sintam e escrevam-no com vosso sangue.
Que vos digo eu no fim deste começo?
Nem tudo o que nas pedras se escrevem
A água da frescura apaga
O fogo que os corações recebem
Com a dor se sente
Com a dor se paga.
Indaga a sua má sorte
A solidão que a acompanha
Na taciturna noite
Invoca presságio de morte
Olho-a, depois ergo
Esse mesmo olhar
Sem pestanejar
A rua permanece
Prestes a gritar
Mas permanece
Aguardo a sua prece
Mas nada
Tudo sólido
Nenhum ranger de dentes, de raiva
Urge das pedras da calçada
Nenhum uivo de dor
Como quem perdeu sua amada
Só, apenas, unicamente
Nada…
Meu casaco cai
Aí vem a primeira rajada de frio
Que afia na sua pedra de amolar, o vento
As suas mil e uma facas
E mais umas quantas, agulhas
Que me dilaceram lentamente
Como brasas que lançam fagulhas
Testo-o!
As camisolas caem
De tronco nu agora
Desses complementos despojado
Mais uma facada
Enquanto foco as pedras, e nada
Perenes na sua instância de demora
Aguardam, talvez, que este despojado louco
(Eu)
Se vá embora
Meu pé não se arreda
Permaneço, instigando mais as pedras
Embrenho-me mais no seu desafio
Suores de loucura
A seta que perfura
Este dilacerante frio…
A febre assintomática da espera
Me toma
Quem não desespera é o frio
Que inicia nova demanda
A neblina adensa-se
Salta para nevoeiro
Como gato que salta para outra varanda.
Desaperto o cinto
Num gesto brusco
Mas não desperto as pedras
Exaltam numa silenciosa gritaria
Suas infames - Grito mesmo de gritar.
Não vim aqui só para vos olhar
Para tal não viria
Vim aqui p’ra caminhar
Desde esta noite
P’ra todo o dia.
Nuvens adensem-se
Cerrem-se
Mas não tanto como minh’alma
Sob a crença de mim próprio
Nu sobre ela me deito
Tomo o dito por feito.
Nu, assim amanhã acordarei
Em mim a fecharei
Como as nuvem que se adensaram
E cerraram
Como elas viverei.
O que ela é?
De que falas nesses intermitentes versos?
- Perguntam as pedras
Ah! Finalmente falaram
Até pedras as mais insondáveis
Venci, venço e vencerá
Qualquer louco suado
Nu, despojado
Que assim nu se entregar
E lançar ao desafio
Pela e só pela nudez trajado
Quais facas e agulhas
Mil e uma e mais umas quantas
Não, não te demoverá o frio.
Falo da rua, das cantigas de rua
Que oiço quando nela venço e caminho
Como sequioso humano
Sorve o paladar do seu vinho.
Deito-me sobre a rua, no meio,
Mesmo sobre o seu seio
Esperando uma outra voz
Que não veio
Mas virá
Sei que virá
Sei porque mim mesmo se deita sobre esta gélida calçada
No meu deleito de ser humano
Sei porque o verdadeiramente sou
E nisso nada há de profano.
Escuto o que a sábia pedra tem para dizer
Com sua voz rouca ensinar
Mais nada espero, que mais poderia acontecer?
Quem por tantos pés foi remexida e mesmo assim
Intocável se mostra á vida
Ela saberá, sei que saberá
Dizer-me que caminho devo tomar
Apenas disse calmamente, sem pestanejar:
“Segue o presente, vive-o como eu remexida mas intocável
Como virgem floresta
E a todos os tempos deverás chegar.”
Um fogo irrompe
Um paladar desponta
A trémula luz incandesce
Agora rejuvenescida
Largou para sempre
Aquela descrença tremida.
Como ela, sendo ela, eu acordo
Começo a cantarolar
E assobiar
Caem as gotas do orvalho
Nas folhas, nos ramos, nas raízes
Até no chão,
Nesta rua da razão
Quando o pássaro levanta voo do seu galho.
Cantigas da rua que palmilho
Que importa se meus pés
Ásperos se tornam
Á fricção da calçada
Porque eu roço nela descalço
Não num bojo de terra
Que se diz seguro e é falso.
As feridas que se abrem
Com meu sangue marcarão
A sapiência destas pedras
Descalço em vós caminho
Eis a minha gratidão.
Ah cantigas da rua, desta rua, do mundo
Que todo ele é-o esta rua
Desenlaça nobre humano
Os cordões que suprimem
Os pés que anseiam caminhar
Na liberdade que convosco nasceu
E vive sonhando com o que sempre será teu.
Vem, caminha a meu lado
De todos esses complementes despojado
E desnudado vem
Eu, tu e ela
A verdade da minha verdade
Da nossa, de todos
Cabeça, tronco, membros
Sintam ó poros a frescura
Respirem ofegantes
Que isto amanhã
Não será “antes”
Mas um eterno depois
Ó verdadeiros caminhantes.
Sintam, abram-se, gritem
Gritem, abram-se, sintam
Sintam e escrevam-no com vosso sangue.
Que vos digo eu no fim deste começo?
Nem tudo o que nas pedras se escrevem
A água da frescura apaga
O fogo que os corações recebem
Com a dor se sente
Com a dor se paga.
segunda-feira, 1 de dezembro de 2008
domingo, 30 de novembro de 2008
Vidoeiros
Gostaria de ir subindo um vidoeiro,
Subindo em galhos pretos ao longo de um tronco branco como a neve
Em direcção ao céu, até que a árvore não aguentasse mais,
E se vergasse toda e me recolocasse no chão,
As duas coisas seriam boas, tanto ir como voltar.
Robert Frost
Subindo em galhos pretos ao longo de um tronco branco como a neve
Em direcção ao céu, até que a árvore não aguentasse mais,
E se vergasse toda e me recolocasse no chão,
As duas coisas seriam boas, tanto ir como voltar.
Robert Frost
sábado, 29 de novembro de 2008
A sábia sombra

A névoa cerra-se a defronte, e quando em tal nos deparamos, a reflexão submerge, e não arreda pé da nossa mente, acedemos então ao seu pedido. Incautos podemos caminhar quando o sol desfralda nuvens que se alinham no horizonte, mas quando o mesmo sol se perde entre o fim de uma noite toda ela do mais puro negro, e o alvorecer se desenha com reminiscências da imaculada negrura, então as nuvens cerram fileiras além e avançam cavalgando a toda brida, o vento sopra a favor....e adensam-se as sombras de uma manhã fria, impávida, primaveril ainda apegada aos rigores do inverno, saboreando no aconchego de seu leito a ociosa mas agradável quentura, guardado só para si a magia que vestirá as árvores e enriquecerá a seiva que ansiosa por germinar os botões balanceia, como uma criança que vendo seu brinquedo ao longe inicia um bate-pé de excitação quando o mesmo se aproxima trazido pelas paternais mãos.
Pois bem, íamos onde...?
Nas nuvens, pois claro, dizia que tomadas as manhãs solarengas por uma sombra imperscrutável, a reflexão martela a têmpora que comanda nossos passos, e abrandamos o ritmo, o coração hiberna momentaneamente, e é agora o pensamento que fricciona impedindo o corpo de resfrio.
Em tais momentos olhamos para a sombra que coleia ao vento, na retaguarda, e perguntamos naquele ritmo das ladainhas infantis :
Sombra minha, sombra minha, que farás tu aí sozinha?
Ao que a astuta responderá:
Espero que me acompanhes, junta-te a mim, ao tempo, e no tempo reflectiremos.
Quero que encerres bem na tua mente esta minha forma corpórea. E termina misticamente ao jeito enevoado, genial e intrigante dos trovadores doutrora que ditavam nossos fados:
Ó corpo que me dais forma
P'ra mim olhai bem
Me aprendei melhor ainda
Cuidai de vosso fado
Que nesta vida tudo se finda
Antes que se torne vosso legado:
Uma sombra de ninguém.
Pois bem, íamos onde...?
Nas nuvens, pois claro, dizia que tomadas as manhãs solarengas por uma sombra imperscrutável, a reflexão martela a têmpora que comanda nossos passos, e abrandamos o ritmo, o coração hiberna momentaneamente, e é agora o pensamento que fricciona impedindo o corpo de resfrio.
Em tais momentos olhamos para a sombra que coleia ao vento, na retaguarda, e perguntamos naquele ritmo das ladainhas infantis :
Sombra minha, sombra minha, que farás tu aí sozinha?
Ao que a astuta responderá:
Espero que me acompanhes, junta-te a mim, ao tempo, e no tempo reflectiremos.
Quero que encerres bem na tua mente esta minha forma corpórea. E termina misticamente ao jeito enevoado, genial e intrigante dos trovadores doutrora que ditavam nossos fados:
Ó corpo que me dais forma
P'ra mim olhai bem
Me aprendei melhor ainda
Cuidai de vosso fado
Que nesta vida tudo se finda
Antes que se torne vosso legado:
Uma sombra de ninguém.
sábado, 15 de novembro de 2008
Cerva, meu (en)canto silvestre...
quinta-feira, 13 de novembro de 2008
O vento que tudo tem...

Abre-se a mim este campo verdejante
O colear das searas de trigo mais além
Vagueio livre…
Na inocência de um rebento
Arfando no regaço de sua mãe.
Interioriza-se…
A demanda de uma espiga
Floresce, cresce e torna-se milho
Alimenta a fome!
Movem-se os pés de cada trilho.
E vem, vem a mim,
Este vento que faz colear
E faz crescer
E faz fervilhar o meu sangue
E faz temer
E sofrer
E quando está frio enregela
Movimenta os cabelos, da paixão, da novela.
E faz e gira e colhe
E grita na toada de agitação
Que a vida tem…
Ela, sem ele não era nada
Nem éramos nada nós também!
O colear das searas de trigo mais além
Vagueio livre…
Na inocência de um rebento
Arfando no regaço de sua mãe.
Interioriza-se…
A demanda de uma espiga
Floresce, cresce e torna-se milho
Alimenta a fome!
Movem-se os pés de cada trilho.
E vem, vem a mim,
Este vento que faz colear
E faz crescer
E faz fervilhar o meu sangue
E faz temer
E sofrer
E quando está frio enregela
Movimenta os cabelos, da paixão, da novela.
E faz e gira e colhe
E grita na toada de agitação
Que a vida tem…
Ela, sem ele não era nada
Nem éramos nada nós também!
segunda-feira, 10 de novembro de 2008
A cabana utópica

Desejo a simples(?) utopia de uma cabana e Amor. A realidade vai-me afastando dela, eu volvendo para lá, para além. Faiscando, como rodas movendo-se numa calha, uma calha ferrugenta, tais engrenagens desta realidade que sopra como ventania reduzindo a minha cabana a uma miragem que ondula, tais ondas de calor, ondula até fazer desaparecer a minha doce cabana na qual digo,ou sonho dizer, "Lar doce lar".
Agora, este corpo se limita, ou cumpre arduamente.
A espuma do mar bate em mim, minha massa informe de carne, tremo morbidamente, sofregadamente, tremo, tremendo, e assim vou vivendo, tremendo ás ventanias, sem a protecção da minha cabana utópica.
Podendo tremer e ser massa informe podendo ser, mais um de entre tantos mas nunca igual, peso neste mundo controverso.
Podendo até perder a mobilidade e tornar-me ignóbil observador, podendo até...sei lá, pois há muito, muito que se lhe diga nas intermitências de um "sei lá".
Mas enquanto tiver amor dentro de mim vivo e viverei, gritando yawps dos telhados do mundo, vivo porque tenho de viver para gritar...
P.S citação original: "Eu faço soar os meus bárbaros yawps dos telhados do mundo" do mestre Walt Whitman.
terça-feira, 4 de novembro de 2008
Abraço Existencial

Acordo, saudando a vida da minha janela
Olho minha mão, mancha de sangue encardido
Que de meus lábios brotou
Na noite, esquivando-me ao desconhecido
Minha boca, a sua, beijou!
E nas saudações matutinas
O dia se levanta a chilrear
Colhendo o tutano
Como raios de Sol, a avidez de um despertar
Inspiro o que tinha expirado
Porque todo o ar é meu
Teu, dele, de todos os seres
Faço-o – Abrindo os braços ao ar alheio
Que para além de mim
Me abraça também!
Sou os resquícios deste abraço
De todo ar que o mundo tem…
Olho minha mão, mancha de sangue encardido
Que de meus lábios brotou
Na noite, esquivando-me ao desconhecido
Minha boca, a sua, beijou!
E nas saudações matutinas
O dia se levanta a chilrear
Colhendo o tutano
Como raios de Sol, a avidez de um despertar
Inspiro o que tinha expirado
Porque todo o ar é meu
Teu, dele, de todos os seres
Faço-o – Abrindo os braços ao ar alheio
Que para além de mim
Me abraça também!
Sou os resquícios deste abraço
De todo ar que o mundo tem…
quarta-feira, 29 de outubro de 2008
Se a Vida fosse apenas, só mais um dia...

Abriria os olhos lentamente, em nenhuma outra situação abrimos tão intensamente os olhos como o despertar, e como seria o último fazia-o como se de o primeiro se tratasse.
Abriria de rompante a persiana, para que os impetuosos matutinos raios solares me magoassem, na ferida que significa: “um novo dia, uma nova descoberta, uma nova incerteza”.
Saborearia o pequeno-almoço com um paladar aguçadíssimo, e entre uma colherada e outra, lá ia fazendo planos para o segundo seguinte, planos esses que nunca chegariam a realizar-se, sabia eu, porque a essência da vida é essa, por mais que calcemos nossos pés, a caminhada futura fará deles apenas o que são, pés descalços, nus, sem protecção, caminhando no escuro guiados pelo restolhar de folhas á sua volta, num esplendoroso dia de Outono.
Sairia de casa, com um sorriso, daqueles, espontâneos, que se desenham pelo pincel do pintor desconhecido em cada um de nós, um sorriso daqueles que de quando em quando se esboçam no nosso rosto e pensando, não descobrimos a razão pela qual despontou, mas sorrimos por não saber porque havíamos sorrido, e nesta pintura de sorrisos, olhamos envolta e pergunta-mos, porque não sorris também?
Caminharia por aí, observando tudo com um olhar de ignorância, não a que leva á estupidez, mas a ignorância carregada de sentido descobridor, pois descobre-se mais se olharmos para algo como se o “algo” fosse algo novo, do que se olharmos para o mesmo “algo” como se fosse “mais uma coisa” das tantas que vemos dia após dia, todos os dias.
Subiria a uma floresta só para ver o orvalho matutino escorregar pelas folhas das inúmeras plantas, todas elas, todas, no seu encanto de encantar qualquer ser humano que se queira tornar encantado. Desceria novamente para caminhar no meio dos seres humanos, como eu, e perguntaria: “Não viveríamos melhor, se a vida fosse um dia, como se fosse, do que vivemos sabendo que são alguns anos? Não viveríamos melhor se sentíssemos o primeiro abrir de olhos, o despertar, como um inicio e não como a chatice de mais um dia de trabalho?
Pois… Quem sabe? Eu sei, sei neste momento, porque momentaneamente parei para perguntar a mim mesmo, e se a vida é feita de momentos, não desperdicei um, antes pelo contrário, abri os olhos e percebi como viver os restantes momentos do meu dia.
Pois… Quem sabe? Eu sei, sei neste momento, porque momentaneamente parei para perguntar a mim mesmo, e se a vida é feita de momentos, não desperdicei um, antes pelo contrário, abri os olhos e percebi como viver os restantes momentos do meu dia.
A caminhada começou a cansar-me, dou por mim sentado numa esplanada, com o sol batendo forte na minha cara, relembrando-me que estou vivo, que sinto e que gosto de sentir. Beberiquei uma Coca-Cola, enquanto observava o ambiente envolvente, mais uma pergunta surgiu: “ Porque nunca me lembrei de que em todos os anteriores dias era eu como estas pessoas que observo, limitava-me a andar, fazer, quase inconscientemente, com que um passo se seguisse ao outro, sem que me apercebesse que tudo pode adquirir uma outra cor no espaço ao nosso redor, se contemplarmos, apenas por contemplar, apenas e só e sem mais, sem reticências, APENAS, por admirar o quadro em que todos somos personagens, fazendo-o ao ritmo compassado de meus passos.
Pois é… Enquanto eu era como estas mesmas personagens, das quais agora falo, não faria uma outra pessoa, no lugar onde agora me sento, a mesmíssima pergunta?
Fica a pergunta, pairando, para que se perca, até que alguém, algures bebericando uma Coca-Cola, lhe deite a mão.
Mas apaguei (ainda que algumas marcas ficaram na folha) este pensamento, o passado correu na outra maré, o presente é agora, no qual posso decidir continuar sentado a beber cola ou ir-me embora. Decidi ir. Porque sou soberano na decisão, nada me prende, nem a refrescante cola com gelo e limão.
Fica a pergunta, pairando, para que se perca, até que alguém, algures bebericando uma Coca-Cola, lhe deite a mão.
Mas apaguei (ainda que algumas marcas ficaram na folha) este pensamento, o passado correu na outra maré, o presente é agora, no qual posso decidir continuar sentado a beber cola ou ir-me embora. Decidi ir. Porque sou soberano na decisão, nada me prende, nem a refrescante cola com gelo e limão.
Senti confiança injectada em mim, não sei por quem, por mim mesmo talvez, e apeteceu-me correr, fi-lo sem olhar para o rasto que deixava, pensando naquele que iria deixar no passo seguinte.
Na minha corrida sorri, sonhei, o sonho quase se fundiu com a realidade, mas eis que tudo se desvaneceu, embati em alguém durante a corrida, mas nada está perdido, o sonho voltou, porque o alguém em quem embati não é um alguém, são uns, as pessoas que gosto, que juntamente com elas, formamos um alguém sendo um tudo.
Com eles, e já cansado de tanta correria, e o frenesim de colisões com “alguéns”, paramos todos, num enorme banco de jardim, olhando, inspirando, expirando, olhando novamente, o sol e a chuva (imaginária), batendo como gotas de algodão frágil em nossos rostos, como se a nossa face fosse o mar onde toda essa “mágica” água desagua. Até que, fitei o olhar no pôr-do-sol, que tal como eu se ia “pôr”, para um universo desconhecido, o dele.
Olhei novamente para o Sol, não o lá de cima, para o sol de cada alguém, que cada um irradia, que todo o alguém irradia, esse algo radiante, faz de nós alguém como eles.
Olhei novamente para o Sol, não o lá de cima, para o sol de cada alguém, que cada um irradia, que todo o alguém irradia, esse algo radiante, faz de nós alguém como eles.
No fim, seria fim? Um pensamento levitou e fundiu-se com um dos últimos raios, numa luz de causar cegueira, nos momentos de maior cegueira, quando a escuridão se adensa, é quando a nossa visão realmente vê, e assim foi:
“Se a vida fosse apenas, só mais um dia, faria dela um começo.”
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