terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Mensagem

Aí está, o novo poiso do libertino:

www.jdmr.wordpress.com

Simples, directo, o poder da palavra por si só.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

(in)Finito

Este post começa a jeito de desfecho, quando o tempo prestes a terminar antecede um garrafudo The End justamente como nos filmes, em que somos assolados com a narrativa intensa do monólogo final deixando em post scriptum palavras que como mel dançarão na boca um tango lento, o tango da reflexão, logo após o tela se fechar em preto.

Por mais que venha com deontologias para com os viveres, ou não viveres, a vida de tal forma móbil vai deixando em notas soltas que a única deontologia passível é nenhuma, e sendo nenhuma todas poderão ser.

Lambusei-me de todo o mel que este libertino espaço me poderia dar, agora com as últimas gotas dançando o tal tango primo o off deste espaço, fito a tela fechada em preto e parto para outros cenários, outras personagens, á procura de novos doces tangos, porque há muito pólen nesta vida, a proliferação depende de nós.



domingo, 11 de janeiro de 2009

Gramática


O que fazemos quando o pensamos?

O que pensamos quando o fazemos?

O que fazemos sem o pensar?

O pensamos quando não o fazemos?


A quatro palavras se resume a vida quando vivemos distorcendo o verbo a um nome comum.
Duas consoantes duas vogais, apenas gramática básica quando o conjugamos apenas na primeira pessoa do singular.
Duas sílabas quando essa singular conjugação não nos faz olhar (e ver) á volta, e nos perdemos mais no nosso próprio circulo, desvanecidos, enjoados quando nos disponhos horizontalmente á noite, tentando que o sono e essa posição sobreponham o verbo virado nome comum que nesse dia preconizamos.

Intermitência será provavelmante a condição que não melhor, antes precisamente, adjectiva o tal nome comum que antes foi verbo, denegrida a sua classe, ou talvez não, nome comum ou qualquer outro, não passa de um estatuto. A intermitente condição continuará com seu pujante artrito tornando desejável o seu wiskhy, quando na verdade só nos trará mais um dor de cabeça e enjoo que afogaremos na horizontal posição ao fim do dia.


sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Os dias como os sentimos


Somam-se-me os dias, disse uma vez o apoteótico Álvaro de Campos. Arriscaria dizer, estando já a fazê-lo, que poderia ter dito assemelham-se-me os dias, sendo diferente para o mesmo converge.
Já não ponha a vista em cima, com o cliché, com estes olhos que a terra há-de comer, desde que me lembro, e passando os olhos pelos papiros da memória, de tal não me lembro, de um dia como este na freguesia de Refojos de Basto, um manto de neve cobriu o que havia para cobrir.
Certamente perguntam-se, também eu perguntaria, o que é uma coisa tem aver com outra, nada a uma vista desnudada, mas tudo se a incidirmos um pouco mais, tudo tem um ponto de ligação, por mais rebuscado que seja.

Os dia somam-se isso é uma constante, mas não se somam se nesse dito verbo aplicarmos a adjectivação de enfadonhos, ou monótonos, como o caro poeta certamente os sentia aquando passou para o papel a frase que começou este post. Dias como o que presenciamos ontem aqui na vila proporcionam um lufada de ar fresco, a neve vinda das ordens naturais tornou o que poderia ser enfadonho em algo completamente apelativo, tornando possivel pôr na nossa boca não um assemelham-se-me os dias, mas provavelmente um isto é lindo, já não me lembrava de um dia assim. Pois bem, eu como ferveroso apreciador tirei logo da camâra para tirar fotos e então me apercebi que no dia que precisamente antecedeu aquele não tive a entusiastica ideia de registar as belas paisagens, porque não o fiz, perguntei e pergunto agora, não se tratava da mesma paisagem?

Um simples novo condimento pode tornar tão diferente o que anteriormente nos passava despercebido, somos nós, seres, que pelo espirito apreciativo incrementamos na neve um aura de beleza, mas o mesmo não o faríamos se tal não acontecesse.
Os dias não se assemelham, nós fazemos com que os sentimentos sobre o envolvente se assemelhem ao ponto de não os sentirmos.
Que se somem os dias, que não se assemelhem o que por certo se diferenciava se caísse neve, como aconteceu, que somem os dias, mas que se multipliquem e conjuguem palavras de apreço.

Acabo de ver um filme cujo final é: "E a vida nunca foi tão doce", nada mais é preciso acrescentar.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Cinzas


O que lá vai lá vai, diz-se de tempos a tempos, bem mais do que se pensa, em lugares múltiplos, pitorescos, citadinos,de bem arejados e aprumados a outros não tanto.
Porque voltam memórias de quando nem sabiamos o significado de tal, quando o esquecimento era ainda uma vagem verde e tenra, crescendo ingénua do ardil em que nos toma o tempo.

A infância perdida, já o dizia o poeta Pessoa, essa em que sem se saber o porquê das coisas se sabe mais desconhecendo, essa sem que haja noção de esperanças todas se nos pousam no antebraço tão naturalmente como passáro que tão bem o faz. À medida que vamos trincando a maça, como Adão o fez, se não foi Adão outro qualquer foi por certo, o pássaro ganha medo e não pousa mais, limita-se a sobrevoar-nos de longe, arguto pássaro que este me saíu.
Penso, imagino talvez, que essas ocasionais analepses que nos remontam para tempos idos sejam avisos subtis, não como letreiros luminosos, simples, visiveis a quem os quiser ver, neste caso sentir, que todos morremos, e se não viramos cinza algo muito parecido será, nem que fiquemos para sempre materiais, em termos de vida somos cinza, enegrecida, disforme, imóvel.

Aí quando todas as luzes se vão desvanecendo em catadupa será tarde, se não revolvermos os tempos quando o tempo é ainda beneplácito, fazendo de memórias algo presente, acaso futuro, esses substratos de névoa serão até ao fim somente como a cinza em que culminava a farta lenha das imensas conversas á lareira desses muitos natais idos, o que lá vai lá vai...

sábado, 27 de dezembro de 2008

Palavras em Busto

Os nomes que identificam cada ser sempre adquiriram grande importância nas questões práticas do dia-a-dia, não só tornam a comunicação assaz processo de inter-relacionamento como permitem que evoquemos mentalmente as caracteristicas da pessoa cujo o nome é pronunciado ou ouvido.
Quando alguém morre seu nome fica, pelo menos até as memórias se tornarem enevoados montes, pela névoa exasperante do tempo, se for caso de tal o nome pode ficar conservado em livros, factos, contos populares que passam de boca em boca da plebe em tal avidez como se um surto de sede tivesse afligido aquelas bandas, em obras, em descobertas e por aí além, mas todas elas podem convergir num opaco e maciço memorial. Falarvos-ei especialmente dos inúmeros bustos que existem, em rotundas e outros que tais espaços públicos que saltem á vista da apressada turba.
Com o tempo ninguém repara, e não é preciso muito, logo no dia que precede o da inauguração ninguém tirando um ocasional turista ou até uma pobre alma deambuleando por nenhures, mas o que é certo é que em termos gerais pouco ou mesmo nada de relevante é imprimido pelas pessoas em tais bustos.
O cerne desta questão é que depois da passagem acutilante do tempo, não só ninguém liga patavina aos ditos bustos como se porventura repararem devanalmente nem sequer sabem de quem se trata.
É a isto a que foram remetidas as pessoas cujas "cabeças" encalhadas num bloco de cimento lembrando os tempos das decapitações públicas e posteriores exibições de aviso aos presumiveis futuros infractores, é desta forma que seu feitos por certo de relevância são ostentados?
Não, desta forma não é possivel desafiar as ventanias erosivas e corrosivas que o tempo exerce na memória.
A forma é simples, é a mesma com que iniciei esta reflexão e a termino, a comunicação.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

Repto

Enquanto nós transeuntes desta Terra, não nos tornarmos passentos à água da chuva, aos raios de sol, aos grãos terrosos que calcamos e decalcamos, aos plácidos verdes da paisagem, a nós mesmos e à imensa turba, seremos sempre uma massa palpando sofregamente nas escuras as formas do ser.

Bom Natal

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Contos em "curta-metragem"(III)

"Simplesmente ser"
O sol brilhava, sempre brilha. Uma agitação de inicio ténue galgava forças, os maleáveis torrões de terra quebravam-se em catadupa enquanto uma súbita elevação surgiu, primeiro a um verde muito tímido depois já de arrebatada por um ou dois dias de sol alto a folhita, ou melhor dizendo a vistosa folha, que isto de narrar fenómenos naturais torna a dita narrativa precedida de anacronismos, lá ganhou cor digna de gente grande.

De sol a sol como um trabalhador escava a terra, as folhas unidas a um caule iam subindo como se vissem naquele ponto brilhante que as vigorava um seio de mãe pronto a mitigar aquela fome de subida. E por ali acima continuavam, a dados instantes uma torrente de frescura irrompia a terra, a água captava-a em gesto mecânico a raiz, cérebro de longas pernas que mesmo sem andarem comandavam e ordenavam: -Avante, àquelas senhoras de seu nariz que ostentavam verdes vivos ao clarão flamante da primavera.
Semana e meia já havia decorrido, ou talvez mais ou mesmo menos, com tanta beleza que importam pormenores temporais? EIA! Gritou a criança que, acompanhando a avó na rega, reparou no botão que um pincel primoroso desenhava nas extremidades finais daquele ser.

Como eterno soberano, o tempo senhor da única certeza que sempre há -de perpetuar, ou talvez não, por estas bandas a que chamamos mundo, lá vai compenetrado na sua silenciosa marcha, junta-se também á marcha a jovial rosa, marcha vigorosa até estarem completas as cinco pétalas de coloração ostentosa, agora balançará ao vento á espera de entre uma e outra ventania ser colhida para intensificar algum momento ou então ficará ali no seu lugar cativo, porção de terra, até definhar às injúrias temporais que tanto engana estas jovens moças com promessas de juventude eterna.
Quando a dita se apercebeu que voltaria em tempo decretado á terra de onde surgiu, estando já a cova feita, já a está para todos como bem sabemos, é a única certeza com que acordamos, ela enraiveceu-se fazendo urgir no seu esguio caule um espinho, símbolo da traição do tempo, e de cada vez que este lhe sussurrava na brisa a jeito de galã ela fechava sua copa, enraivecia-se e mais um espinho se ornamentava com ímpeto de guerra, como aviso ao pretendente que tentava abrilhantar a face de donzela, que se estava escrito nas pedras do destino que as cinco pétalas cairiam para não mais ressurgirem também ninguém iria arrancá-la da terra.

Todo o santo dia o galã ciciava a sua sedutora mímica aos sete ventos e a quantos mais houvesse, todo o santo dia despontavam sete espinhos e quantos mais coubessem.
Até que, nestas histórias há sempre um “até que”, o galã sibilou uma outra cantiga, um cantiga bem diferente, uma cantiga capaz de espicaçar a frondosa copa de cinco pétalas a abrir de uma só estocada de rejúbilo, desta vez não veio com promessas, apenas disse, e nada mais foi preciso: - Porque insistes em cravejar a periferia da tua alma a espinhos se aquilo que és transcende muito mais do que cinco pétalas que ostentas como um ceptro de juventude, minha querida não é o ceptro que faz o rei, é o coração, e nesse nunca conseguirás fazer surgir qualquer espinho.

E a rosa simplesmente decidiu aquilo que por natureza já havia sido decidido, a ser rosa, efemeramente feliz, quer se veja sol ou o dia se abra em chuva, apesar de nesta última a água que lhe fará pesar as pétalas a entristeça, vendo seus tons garridos remetidos a outros esmorecidos, mas vistosa ou esmorecida é rosa e tal ninguém lho tira, e como o sol brilha, sempre brilha ela é rosa e sempre o será até que o decreto temporal da mesma mão que a viu nascer a enterre sob o seu próprio caule.

domingo, 14 de dezembro de 2008

O elixir da vida

A um passo segue-o um outro
Único trilho, trilho único que nos meus olhos é calcetado
Vivo os sons, as cores, os odores
Sigo em frente e sou amado

Vides ladeam o caminho, meu corpo
Corpo num meio sublime
Das ramadas despontam bagas, um leve odor adocicado
Respirava livre e conheci-me
Sigo em frente e sou amado

Pé ante pé, surge nova pedra
Na estrada que construo nunca ajoelhado
Surge na minha rota a natureza como o é
Sigo em frente e sou amado

O vento uiva transversal
Ando, corro, salto e grito
Grito a cor de um poema, suor do meu próprio sal
Ei-lo o momento, indago e suscito:
Sou amado e imortal!

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Contos em "curta-metragem"(II)


O recém-nascido



O sol brilhava, sempre brilha. Recuamos, em pleno séc.XVI chamo-vos para a história de Tiago, um rapaz que se fez homem, um homem que sempre viveu rapaz.Deambulando nas oscilantes eras do crescimento, balouçando como barco ás palpipantes águas de rio que corre e revolve ao tom imperativo do vento.
Num barco nos encontraremos. Nele, sentando, fresco como a ar matinal, estava Tiago, com as mão em posição, cada qual no remo correspondente, preparado para o dia de trabalho.Era o que fazia, o que sempre desejou fazer desde a primeira vez que sentiu os remos e o controlo de um pequeno pedaço de madeira sob os seus membros.

Este rapaz trabalhava para senhores ricos, membros honorários da alta burguesia, daquela cujos titulos são como que hereditários. Todos os dias fazia transportar tais individualidades pelo curto caudal que rodeava a mansão, até á margem onde se encontravam o vistoso coche e os imponentes cavalos.

De toda a familia, Tiago sempre preferiu transportar o menino, que salvo seja, teria já os seus vinte anos, um carão de responsabilidades e a elegância de um aristocrata, quando os dias acordavam daimosos e o sol libertava a sua magia e se mostrava de peito cheio, arfando o fidalgo ás brisas da manhã, tudo adquiria uma nova alma, e o fausto do menino radiava como se também de peito cheio ousasse desafiar o fidalgo de lá de cima. Em tais dias mostrava-se muito conversador, falava da vida, do belo, de literatura, de música, de pintura, de em arte em si, enunciando uma roda-viva de nomes abrilhantados por um tom conhecedor, era pois a escola de Tiago, pouco sabedor pelo oficio, assim o diziam, mas não, dizia ele, Tiago tinha também um peito cheio dentro dele á espera de uma qualquer luz que incindindo nele o fizesse adquirir por certo uma nova alma.


E não é que o peito cheio arfou nesse mesmo dia?

A meio do caudal enquanto muito indiferente, fingia ele, compenetrado nos seus mecânicos movimentos, mais do hábito do que qualquer outra coisa, o menino desviando repentinamente o olhar das sucessivas circunferências criadas pelos remos na água, indagou deste modo, como se as palavras ganhassem perninhas e corressem da boca pra fora pedindo boleia ao vento: -Há algo que se me interpôs na consciência, gostas realmente do que fazes?
O pobre rapaz, sentiu que algo lhe arremessara o coração fora e o tornara a colocar tudo isto num segundo, primeiro num acto de coerência, pensou que não seria para ele, mas nesse mesmo primeiro momento a coerência revelou-se estupidez porque não havia mais ninguém para além dele, depois pensou que poderia ser algum devaneio artistico do menino, pensamento que se caíu como pedra em água, afundando-se quando ouviu de novo a pergunta.
Elevou o tronco a medo, a cabeça ainda com mais, mas nunca extendendo a máximo, para não arriscar ficar a um nível acima do posição do menino.
- Eu... eu gos..eu gosto.
Nada mais disse, não queria abusar das palavras, pensando mesmo que já o tinha feito.
-Mas fala-me mais, diz-me o que sentes quando percorres o rio dia após dia.
- Menino, desculpe, perd..perdão perdão, caro senhor é apenas o que faço, faço porque alguém o tinha de fazer, e eu gosto juro que gosto, o lago é bonito e estou como sempre sonhei em comunhão com a natureza, o sossego é a minha vida, o seu cântico a minha voz.
-Gostei, revelas simplicidade e alma homem. E que tal se remasse eu hoje o que falta até á margem por ti?... não nada disso, não há desculpas, disse e tá dito, afinal quem manda? perguntou sorrindo
E assim foi, Tiago refastelou-se no lugar que nunca lhe pertenceu,toda a sua vida havia sido vista de um lado contrário, pensou, pensou e disse por fim ao menino que agora se tinha revelado homem.
- Basta ver a vida de um outro lugar que não o que sempre guardamos como nosso e ela revela-nos uma outra expressão, sorri-nos talvez, mas olha-nos com os mesmos olhos que olho agora para o mesmo lago, para os mesmos remos, para o mesmo tudo, e tudo se me mostra novo. Acabei de nascer - disse por fim.
Nesse momento, porque a vida é feita de momentos,o lago foi remetido a uns bons mil metros acima do nivel das águas, e o rapaz feito homem que sempre viveu rapaz deslizou, ainda não tinha recebido todo o sentimento de andar pela primeira vez de barco quando o sol, o fidalgo de peito cheio, incidiu sobre suas mãos, as mesmas que remavam, os calos desaparecem e a metamorfose culminou na nova alma adquirida do recém- nascido Tiago .